domingo, setembro 24, 2017

O grande guerreiro subsiste
e à luta não profere adeus,
ou não fosse ele em si um Deus
do Reino que em si persiste.

Para trás, a usurpação
do que era seu pleno direito.
Entanto, o durar dela é estreito
ante a larga espada na mão.

Que a luz que em seu aço refulge
atravessa a névoa que paira,
faz luzir seu trono e sua ira.

E dessa visão ele não foge,
pois mais que a sede de vingança
impera do Povo a 'sperança.

terça-feira, dezembro 06, 2016

A vida é o horizonte. Aquém do horizonte é o local, a matéria, o concreto, rígidos, inflexíveis. Nada se pode fazer em relação ao concreto a não ser passar, não há maleabilidade no aqui, só passagem. Apenas fitando o horizonte, e porque o olhar é uma projecção (ou o seu princípio, em rigor), apenas assim damos um passo em frente, um que o seja realmente, mais do que um banal fazer avançar o pé. Só assim presenciamos algo mais, e só assim existimos, em vez de estarmos. Em nome da Lua, que preside ao sonho, haja horizonte!

domingo, dezembro 04, 2016

Inspiração

Erguem-se seres em apoteose,
gigantes, gárgulas, dragões,
dançando pelos ares em turbilhões,
criaturas míticas em simbiose.

Preenchem o mundo de emoção
os unicórnios, os elfos, os tritões
e os vampiros que saem dos caixões.
Espalham temores e admiração.

A adrenalina é aquela divindade
que faz abrir a fenda fantástica
por onde irrompem como arte mágica
mil ideias tornadas realidade.

É o sopro que faz o vendaval
e a chama que nele a alma aquece,
pois até as sensações que a ideia tece
vestem o coração co'o seu astral.

Todo este mundo é a energia dela.
Não é que espaço a imaginação
onde deposita a sua criação,
e o poema é apenas uma janela.

terça-feira, novembro 01, 2016

É mais um dia que passa,
menos um dia que resta
de uma rotina sem festa
de uma vida que é sem graça.

Segue-se um dia sem rumo
p'las ruas do alheamento.
Cada momento de alento
cedo arde e é só fumo.

Este inferno que contemplo
no lar vazio é um templo
à vanidade e ao nada.

Que haja ao menos Satanás,
perdure a chama que traz,
quente a alma condenada.

sábado, março 26, 2016

Os espaços são lugares cativos
das paredes das quais se é refém.
As pessoas, só fragmentos vivos
do facto que é não serem ninguém.

Os sonhos, o momentâneo oblívio
do p'sadelo que é a realidade,
e os amores um impulso pífio
de ignorar do afecto a vanidade.

E o poema não passa de a razão
constatar que por tudo ser fútil
do desespero também a expressão,

suspensa em vácuo, sem direcção,
tem o mesmo tanto de inútil
que a passagem do tempo, erosão.

quarta-feira, março 16, 2016

Pela catedral da alma passa o dia
como folhas de Outono caem mortas,
cada folha de pensar é só as portas
sob a abóbada de ela 'star vazia.

Entram quer noite quer vento p'los vitrais
que à luz da vela são só vidros partidos,
o movimento, a chama, sonhos varridos
p'lo ocaso que há a cada passo mais.

Queda, a espera no encosto do pilar
que sustenta o nada que há ante o altar
de memória pelo caruncho carcomida

é saber que ele é falta de esperançar
por saber que resta pelo sono aguardar,
que ela mesma por ele é absorvida.

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

As cinzas do palácio refulgem,
os padrões dos clãs ardem às cores,
tropas caem ao som dos tambores,
das civilizações a penugem.

Textos e quadros o vento varre
como a História cai no 'squecimento,
hoje é d'ontem o apagamento,
abismo sem nada que o agarre.

Amor, ódio, licores, absintos,
guerra ou paz, fenómenos extintos
quais do sol brilhante o eterno eclipse.

Piedade é só mais um termo vão,
humanidade outra ex-criação,
que eterno é só o apocalipse.

Nas trevas da cidade bailam chamas.
O ar é rarefeito e sulfuroso,
o asfalto liquefeito é pegajoso,
e os monumentos tombam pelas lamas.

Progride a custoso arfar e passo
por corpos que jazem carbonizados,
p'la queimadura seus músc'los sulcados,
coberto de cinza, envergando aço,

um guerreiro de olhar irredutível,
enfrentando a cada esquina a insídia
dos demónios que conjurou a perfídia
de Xaltotun, feiticeiro terrível.

Assobia a sua espada inexorável
quando entre as garras seus golpes desfere.
Nem a sua marca quente e funda fere
o seu espírito de fera indomável.

Do seu rasto a crónica é escrita a sangue
de vampiros e ogres sem cabeça
e dela consta somente a promessa
de derrotar Set, Quod Magna Angue,

fonte dos negros poderes ocultos
com que o Mago horror e caos espalhou
e Senhor da Terra se proclamou
dizimando da resistência os vultos.

Tão só a espada de Conan se ergue,
sem preces, que ela em si é a verdade,
rumo ao castelo maldito de jade
e aos sortilégios mil que ele albergue.

Sua lâmina milenar abrirá
o trilho de sangue, suor, e certeza
que sob ela e sob de Crom a grandeza
o crânio de Xaltotun rolará.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

O sentimento é a maré negra
que assalta e assola o continente.
Furiosa irrompe indiferente
e colhe vidas sem ter regra.

Das casas de ontem faz destroços
e arrasta entregando-os aos ventos
os confortos ante os tormentos,
sem direcção ou sequer 'sboços.

Neste cenário devastado
derivam almas sem 'sperança.
O movimento inútil cansa.

Os furacões em turbilhão
engolem a população
do planeta enfim inundado.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

O tempo é uma catedral antiga
perdida na imensa floresta
e a lua ilumina p'la fresta
o interior que apenas castiga.

O espaço vazio, suas guaridas,
detalhes da sua arquitectura,
e cores da sua pintura,
memórias p'la noite varridas.

O pêndulo é o som do seu culto,
única e monótona prece
cujo eco apenas adormece
dos sonhos perdidos o vulto.

No sono, a dureza do chão
ou o espírito seco e os vinhos
é a rosa da vida ser 'spinhos
e a carne decomposição.

Suas torres escuras e sós,
solenes ante o frio da aragem,
são um poema vão sem mensagem
erigido p'la torpe voz.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

I - Vila

Sobre o típico mosaico da calçada
da praça que ladeia o velho palácio
há famílias e turistas no prefácio
de um dia ameno sob do sol a alçada.

Dela partem ruelas de igual populadas
entre lojas de artesãos e doçarias
e casas rústicas e cães e alegrias
nos convívios saciados nas 'splanadas.

Calcorreio sem destino nem pertença
este cenário onde divago sem crença
quando por ele passa um distante vento

que traz consigo um silêncio clamoroso
ao invés do burburinho langoroso.
Soergo a face e avisto o chamamento.

II - Serra

Os enormes montes verdes, imponentes,
visão essa que a estrada estreita galga
como do mar banhada a pele se salga
são carvalhos e salgueiros à alma rentes.

Poucas quintas e vivendas os pontilham
da ideia de civilização pequena
que até perante o esplendor alto da Pena
se perde ao se diluir em bosques que brilham.

Como o sol no horizonte vermelho fica
o ímpeto da pesquisa se intensifica
e os passos em busca do significado

mergulham entre as árvores e os penedos
sobrepondo-se aos cansaços e aos medos
num ingresso pela lua enfeitiçado.

III - Floresta

Lugar que não é lugar, sem coordenada,
cartesiano enigma encoberto por copas
que vestem lógica de pesadas roupas
tapando a solução na mente apenumbrada.

Côr que não é côr, vegetação cerrada,
sugestão de verde que em bruma desbota
tal como o aroma da flora que brota
se dissipa n'alma p'la treva aventada.

O calor da estação e o frio da geada
não contrastam distintos pois esmorece
a noção de temperatura que se esquece
como ante a noite escura a alvorada.

Ao dar-se o abandono geral dos sentidos
dá-se sábio o abandono pelas fissuras
sob o piar das corujas lá nas alturas
das certezas, das dúvidas, ou dos ruídos.

Quer razão quer emoção são engolidos
pelo denso breu que a mata em si encerra,
sem paz nem agitação, apenas serra
onde todos os estados são sorvidos.

A própria presença faz-se factos idos
na distante ausência até de estar ausente
neste momento eterno que pára a mente
e dispersa do tempo os grãos esvaídos.

Entre o estar e o existir, a fenda aberta
e o vazio que emana da sua ampla rotura
revelam-se então saída da clausura,
do que está por compreender a descoberta.

E afinal toda esta anulação que aperta
é uma soma de sítios, um vasto espaço,
o negro arvoredo o mais garrido abraço,
e o nada a maior, mais generosa oferta.

O mistério que é nosso, dele coberta,
reaviva a floresta só dando a resposta
ao deixar de do todo ser parte posta -
sendo um com ela, indivisível, se acerta.

IV - Natureza

A paisagem é de um corpo os contornos,
as elevações seus seios bem assentes,
a flora sua pele e tez resplandescentes,
e a beleza de tudo isto seus adornos.

Toda a fauna e a gente que nela habita
são seus filhos do qual ela é protectora,
que é das vidas de que ela é progenitora
que o seu coração é composto e palpita.

A neblina que a envolve é o carácter
complexo e precioso e de ser alma mater,
e as nascentes que irrigam são o querer

e o seu fluir puro os desejos sem ralo
de se entregar toda ao mar e seu embalo.
Natureza que é plena, mãe, e mulher.

domingo, fevereiro 07, 2016

Trilhando a fuga irregular
como do terreno o relevo
adensa a ramada sem trevo
o azar - não abrigar lugar.

No desfreio da projecção
de além dôr bem que sem angra
ignorar a pele que sangra
da pancada e do arranhão

os passos em si se emaranham
na antecipação da pegada
que é não haver enseada
mas feras que por trás se assanham

até ao tropeço maior
de cair noção de caminho
p'la ravina em redemoinho
num desnorte ainda pior.

De da colina as alturas
envoltas distantes em névoa
a queda é total da pessoa
em pânico até às funduras

onde o solo jaz pantanoso
e engolfa o peso dorido
de um corpo de alma caído
no seu oblívio ruinoso

no qual o esbracejo esmorece
torneado p'lo lôdo que sobe
borbulhando a ameaça improbe
de engolir a forma sem prece.

Sob ele a visão turva cega.
Vislumbra tão só a anaconda
e na sua barriga redonda
sucumbe ao desfado da pega.

terça-feira, outubro 27, 2015

Alheado o lugar no qual me sento,
trivial o lar no qual mal sinto,
e as emoções algo de indistinto
da passagem exterior do vento.

Aninham-se as horas no momento,
abrigam-se de águas que pressinto,
e o próprio existir ante mim minto
para ignorar todo o sentimento.

Mas nuvens pairam como memórias,
carregadas, cinzentas, de histórias
que tristes escorrem às janelas

a falta de terem sido belas -
invadem o silêncio que esqueço,
que nem voz de alguém que não conheço.

quarta-feira, setembro 30, 2015

As ruas adormecem. O candeeiro
ilumina ténue e mal as memórias,
o cinzento-calçada sem histórias.
De pouco serve ter na mão o isqueiro.

É balda da insónia a varanda.
Não se avista onde o caminho conduz -
a esta hora o caminho está sem luz
e o pensamento só por si não anda.

No ar de um morcego a dança perene.
Resta fitar a ausência de passos
entre os prédios da rua e muros baços,

'sperar até que não esteja vazia
das pessoas que traz a luz do dia,
e que uma delas sorrie e me acene.

quinta-feira, setembro 17, 2015

Findo o impulso, passado o vento,
do carvalho as muitas folhas quietas
adornam as fronteiras não rectas
da clareira só e o pensamento.

Luzindo e entrecortando o momento,
a Lua que invade como setas
as frestas das mil ramadas pretas
do bosque calado e o sentimento.

Aqui não há nada. Um lobo uiva.
Ateio uma fogueira e a chama é ruiva,
dispersa na sombra do carvalho.

Longe, de um palácio as ténues luzes.
Aqui, palavras dormem sob cruzes
e uma chama arde p'ra caralho.

sexta-feira, julho 31, 2015

A minha casa é o Templo das Horas
onde o tempo flui, sem pressa nem demoras.

E eu serei o fantasma que a assombra
e onde a tocha dá a luz eu sou a sombra.

E a voz do tempo fala sem qualquer sotaque,
e eu escuto e só oiço "tique taque, tique taque".

Como no respirar, passou por mim a inspiração
que quando se expira nos deixa sem vazão.

No intervalo seguinte fica-se com falta de ar
e o relógio bate, único som no lugar.

Privado de oxigénio, sobra escrever uma rima
que cai como uma uva que sobrou da vindima.

Como o sobrevivente de um destruído hemisfério,
como o morto que passeia à noite no cemitério.

Onde o único vinho e a brisa que perpassa
é a noção de a não haver e de estar vazia a taça.

Deixo a sede vã soar, envolto no ar bafio,
mas do novelo do silêncio apenas puxo mais um fio.

Como uma gata sem esperança que absorta
finge brincar para esquecer fechada a porta.

Deste Templo a única estátua de pedra é a arte,
do céu carregado de breu o ténue brilho de Marte.

Vã, fútil, inútil, mas ainda assim o estandarte
de um pelotão caído, de um coração que se parte.

quarta-feira, julho 22, 2015

Subindo, almejando, na passada clandestina entre as árvores serranas, procuro o mais recôndito miradouro natural no qual melhor sentir a vista nocturna da natureza virgem por baixo do meu olhar sequioso de paisagem escarpada e selvagem. Aonde o vento justifique com a sua intensidade a pele adormecida que me envolve, aonde ele como lâminas reveladoras me entrecorte o conforto dos cabelos dependurados quais frutos por colher, aonde ele me traga ao olfacto citadino e poluto a frescura de mil fragrâncias do mundo imenso, da sua maresia, da pólvora das guerras, dos côcos das palmeiras dos oásis no deserto. Por isso ascendo. Haja trilho ou não, ascendo. Procuro na longitude o que não está na latitude. Não quero saber de coordenadas. Estar perdido é uma ilusão. Sei que estou no planeta Terra, e por isso ascendo. Sem ilusões, sem pretensões, que não caminhar, e caminhar, deixando para trás as pegadas mil, decalcando a ininterrupta marca da minha demanda, visível, mais saliente ou menos, mais inteligível ou menos. Amigos as verão, inimigos as verão, uns interpretarão de uma forma, outros como lhes convier. Subo, tendencialmente ignorante dos barulhos das aves de rapina e dos lobos. No durante, procuro entender e descrevê-la com os meus passos toda a realidade que me circunda, e também a que me está inscrita. Como o Galileu, que analisou toda a nossa circunferência, e que quiseram crucificar por isso. Como os filósofos, que observam sempre, e analisam sempre, indiferentes aos limites, pois não os ultrapassam na sua mente puramente constantante. Como os artistas, com todo o exagero que a arte acarreta. Subo, displicente em relação aos perigos. Subo, fiel aos instintos que prevalecem, maiores, intocáveis, como as árvores seculares que rodeiam este abrigo, exposto, mas paradoxalmente um abrigo. Abrigo da sociedade, das notícias, da política, das telenovelas, dos dramas, e de outras subtilezas... De tudo o que existe no dia-a-dia comum. Por isso prossigo. Sem querer mais do que as folhas caídas dos ciprestes em meu torno , sem mais querer do que a minha própria mónada verde. Sou daqueles gajos que estacionam sem ocupar dois lugares. Estaciono no meu, e quem quiser que estacione onde quiser. Se quiser estacionar ao pé do meu, tem lá espaço. Só isso. Fora isso, é sempre a seguir caminho, sem querer saber da distância nem das pegadas nem dos arredores. Estou bem neste caminho incerto. Estarei bem, onde quer que ele vá dar. É isto a liberdade. É isto o mundo, para lá do lugar-comum que é a povoação regrada. É isto a vida que há escondida, algures dentro da vida. Sou isto. Nada mais. Mas também nada menos.

sábado, julho 18, 2015

De janela entreaberta observo a cidade e a aragem.
Cai a noite, e o vento sopra uma projecção de viagem.

As paredes desintegram-se e com elas vai-se o calor.
Alguém liga o micro-ondas e ele dá o som do motor.

Vou contra um camião fantasma que me atropela a alma.
Perco as rédeas do volante e lá se vai toda a calma.

Estava só no meu país mas fui parar a uma floresta.
Da estrada um trilho cerrado, até que não há uma fresta.

Os mochos piam a direcção mas não consigo entendê-la.
A lua ilumina um pombo a ir louco contra a janela.

Oiço sons de patas ferozes que rondam os arredores.
Entro em pânico, mas não consigo alcançar os estores.

Tento fugir mas em vão, músculos aterrorizados.
Tento fechar os olhos, mas eles estão esbugalhados.

Vim parar a um sítio místico, os sentidos em dormência.
Mas não consigo adormecer para sair desta demência.

Até que se ouve uma música e aos poucos nasce o dia.
Dissipam-se os arbustos e os passos e a azia.

Embalado pelas notas dou por mim de volta a casa.
De regresso à paz do lar, a normalidade extravasa.

Suspiro... mas não sei se aliviado ou nostálgico.
Não sei se pertenço aqui ou àquele lugar mágico...

Olho enfim para a janela e para a rua pequena.
Tudo está conforme mas no parapeito uma pena.

Penso no pombo e há uma questão que em mim ecoo.
Aonde é que acaba a asa, aonde é que começa o vôo?...

quarta-feira, julho 15, 2015

De dia 12:

Perdida no mais alto mar
ao sabor da ondulação
deriva uma só embarcação
sem destino ter, nem lugar.

O seu nome é Nau Trotineta
e ao comando seu lá vou eu.
Pedalo sempre rumo ao céu,
sempre evitando a linha recta.

Deixei para trás minh'aldeia,
só que por ter alma de artista
do trajecto perdi a pista
fascinado p'la lua cheia.

E agora? Mas que grande bosta!
Pouco falta para estar morto...
Há dias que não se vê porto.
É que nem sequer uma costa!

Acabaram-se os mantimentos,
sobrevivo de água do mar,
mas isto não pode durar,
que quilos já perdi duzentos!

Encostado à proa, a esperança
perdeu-se no rasto da popa.
Sabia mesmo bem uma garoupa...
Mas nada pr'acalmar a pança.

Enfim. Uma vez conformado
co'o final da minha história,
à cabeça vem-me a memória
de momentos do meu passado.

As batalhas que combati!
Inimigos que degolei!
Víuvas que a seguir violei!
Condecorações que obti'!

Das lembranças o maior mote
são as gajas que já papei!
Oh, e como rejubilei
se deixavam ir ao pacote!

Fecho os olhos e espero o fim.
Brado meu adeus em voz alta.
Um som porém me sobressalta.
Abro os olhos... 'stou sem latim!

Alguém se aproxima... a voar!
Será uma espécie de anjo?
Será da morte algum arcanjo?
Ou estarei eu a alucinar??

Mas não... é humano este ser!
E está a vir pr'aqui! Pequenina,
a cara tem-na de menina
mas o corpo, esse é de mulher.

Só consigo exclamar um: "Hã?!"
Até que poisa no convés.
Esfrego os olhos, conto até dez...
"Olá. Chamo-me Patty Pan."

Dou por mim todo abananado,
tenho em turbilhão os neurónios.
Acho que se fosse unicórnios
não ficava tão admirado!

"Então! Manda a educação
que te apresentes, como eu fiz!"
... "Desculpa. Sou o capitão RiS.
Mas que inesp'rada aparição!"

"Bem, vinha a passar e achei estranho.
Estás longe de tudo e sozinho."
"Pois é... Sem comida nem vinho!
Nem água para tomar banho..."

"! Que bom que te vi nesse caso...
Tem calma. Nada está perdido.
Já basta o que tu tens sofrido.
Vou-te pôr em Burkina Faso!"

"Ena!!! És a minha heroína!
Tiraste-me cá de um sarilho...
Queres que te faça algum filho???
Preferes encomendas da China?"

"Não, não... não preciso, obrigada.
Gosto de fazer boas acções.
Porém tenho umas condições!
E vais ver que não custa nada.

Apenas peço uma promessa:
Carne nunca mais comerás.
Que os animais vivam em paz!
É só, nada mais me interessa."

O quê?! Minha alma está partida!
Eu gosto tanto de um bom bife... :\
Mas nada de armar em xerife,
ela está-me a salvar a vida...

Acedo. Ela faz-me sinal
e eu subo-lhe às cavalitas.
Voamos à luz de estrelitas
em viagem que não tem igual.

E por fim piso terra firme.
Meu deus... sensação mais sublime!
Até choro, pois comovi-me,
e com os nervos desato a rir-me.

"Mil thanks!... queres o meu telemóvel??"
"Nahhh, vá, deixa-te lá de tretas."
Despede-se entre piruetas
e vai-se... assisto imóvel.

"Pá, jamais 'squecerei o rosto
da minha linda salvadora...",
reflicto, de volta à Amadora,
enquanto trinco um entrecosto!
De 21 de Junho:

Desço a escadaria do sentimento. Dou por mim sozinho à beira do Rio da Passagem. Não há outra margem. Sento-me, cabelos ao vento, à espera q alguém se sente ao meu lado, fitando a paisagem inevitável. Por trás, magnanime, à espera do meu regresso, a Torre da Solidão, e os corvos q bailam em seu torno, jocosos.

sexta-feira, março 27, 2015

Desco pela rua da noite sem rumo definido, no escuro. Porém não me sinto perdido, pois sei onde estou, conheço a cidade. Mas isso incomoda-me terrivelmente. Como se denunciasse a minha deambulação, como se tornasse flagrante que me infiltrei pela noite dentro. Como se a lua tingisse de um branco pálido e aberrantemente incolor o coração descontrolado. Meto pelo primeira porta do primeiro bar que me aparece à frente. Tento afogar o coração e sufocá-lo com cerveja e nicotina. Ele apenas se engasga e continua a bater fortemente. Dolorosamente. Respiro a medo. Cada golfada de ar me alimenta a mágoa de estar aqui. Fechado num bar a dissecar o desconforto da existência nocturna e citadina. Anseio pelo ar da serra e pelo vento pungente que parece que sopra a consciência e o inconseguimento para longe.

Preciso de férias de mim.

terça-feira, março 17, 2015

"Ah, epah, e se não queres pintar o quadro, não andes praí a esborratar o chão de tinta. Não é bonito."
"Desculpa... é que as latas tão cheias e eu ando com elas às costas e isto verte..."
"Epah não me venhas com desculpas, fecha lá mazé isso como deve ser. O mundo não é o teu palco."
"Pronto, desculpa, desculpa."
"No fundo é saber que o sol não brilha de noite."
"Está calado. Tu tens é medo de abrir as janelas."
"Não digas disparates. É cedo. Quando for de dia abro-as."
"O dia, meu caro, está dentro de ti... Só tens que sonhar com mais força."
"Era bom, amigo sonhador. Era bom. Mas sei que é de noite, e que se sair à rua a bradar aos céus que é de dia, o mais que vai acontecer é pensarem que eu sou maluco. Mesmo que não o digam em voz alta. Por isso, espero... Quando for de dia e nos virmos com mais claridade, aí anunciarei ao mundo a aurora."
"Tu é que sabes. Eu cá acho que és só maricas mas pronto."
"Lol."

domingo, março 08, 2015

A coragem é uma intenção gorada pelas areias do tempo cuja aridez a inspiração cada vez menos sacode. Adormecida sob a manta da inacção, aguarda a próxima tempestade para tentar levantar vôo.
Palpitam os lugares-sombra neste dia solitário. Vestígios de passagem, de encontros, de desencontros, populam as ruelas da cidade-fantasma em que vagueio. Como se o oleiro da memória fizesse moldes de uma série de objectos conceptuais e os largasse pela casa do hoje, vazia e irritantemente arranjadinha, como se não morasse ali ninguém, como se a presença fosse um mero acaso rodeado de indiferença. Sopra por tudo isto um vento por vezes frio, por vezes quente, chamado coração. Que mostra que ali está, que dá sugestões de temperatura, mas que nada muda por si só. Esta aldeia precisa de um moinho, algo que catalise e que da aragem faça o pão com que alimentar os sentidos, é preciso dar o sinal de partida e dar início à corrida centrífuga da nutrição espiritual. O silêncio urge o cântico a disfarçá-lo, urge as engrenagens existenciais a guinar, urge os instrumentos disponíveis a trinar, urge o poema a escrever-se. Assim se assina a condição humana de solidão e de desejo.

segunda-feira, março 02, 2015

Intenções...
Construo, destruo,
e fica só o nada.
O nada gritante,
o nada exasperante,
fitando de frente a minha indeterminação,
satírico.
Vejo-te, intermitente,
no espaço da imaginação
que se tenta apoderar da realidade
e do vazio.
Tentar desconstruir
para tentar construir -
mas está tudo coberto de medo,
tudo irreconhecível,
abstracto.
Já só quero avançar os ponteiros do relógio
até depois da ponte,
da travessia deste abismo emocional,
sem saber sequer se me esperam
do outro lado.
Não interessa.
Quero dormir esta sensação um pouco,
apagar as cócegas intensas
que me desgastam
e ferem.
O ego, com falta de oxigénio,
tenta vir à superfície
esbracejando loucamente
num mar negro de silêncio e de insónia.
Como é que eu vim ter aqui, pergunto-me.
(Tento racionalizar o facto de me sentir perdido.)
Mas não sei.
Foi tudo demasiado de repente,
como um acidente rodoviário
nas estradas do quotidiano,
nos percursos cartografados,
dos quais me despistei.
É oficial, morreu a dúvida
de que nasceu o amor.

domingo, fevereiro 22, 2015

Da névoa que alberga calada
a noite onde a alma já dorme
vem distante visão informe,
um vulto cuja aura é dourada.

Refulge pela treva instalada
o brilho que a sua aura oferta
e a côr da sua forma incerta
desenha no escuro uma estrada.

Despertam sentidos dormentes
rumo à luz que se fez caminho,
feitiço estonteante qual vinho
os trajes seus resplandescentes.

Os ornatos seus reluzentes
adornam um corpo de rosa,
realçam-lhe a pele sedosa,
lindos olhos, lábios e dentes.

Já próximo, a escuridão vã
dissipa-se no trilho ido
tal é o deslumbre sentido
pela figura mágica afã.

Resta a admiração de um fã
rendido à princesa guerreira
de espada, escudo e viseira,
e de nome seu Jessie Ann!

sábado, fevereiro 07, 2015

Facing the Reaper

A new world unveiled filled with horror and magic
I crushed into it on a night very tragic
dwindling I was in the lanes of apocalypse
and there you spreaded the word 666

Dark powers emerged, the earth split in two
My heart started racing, my legs shaking too
But what could I do, I knew nothing of thee
Dark wizard of chaos, chaos all I could see

I called upon God as you called upon me
But my calls were dull as you stood almighty
Heaven was far and your spell was near
About to give up I trembled with fear

But then I remembered the sword of my father
I shook my stunned head and wielded it high, rather
I professed my vow, to never give in
to the powers of thou, to the legions of sin

Today I still ride and fight on my horse
Undisturbed by your evil legions, their force
Today I still ride and fight through black meadows
For mankind's right to a life without shadows

Grim Reaper, hear this: now I shall not rest
not until my heavy sword puts you to rest
Your demonish troops I'll tear down one by one
Until I reach you and your realm is undone

So prepare yourself, the age of doom will fall
When I sight your castle and climb its thick wall
For people's hopes I carry, for we're not your son
And in your tomb shall lay written "killed by Conan"!

quarta-feira, abril 02, 2014

Foi um pedaço somente
num vislumbre reluzente
que apanhaste curiosa
como quem colhe uma rosa.

Era um estilhaço apenas
com faces de brilho plenas
que observaste na mão
como se uma ilusão.

Que faz isto aqui, soaste?
Silêncio. Atrás deixaste
na paisagem solitária

o objecto ali esquecido
e a sua luz de cor vária.
Fragmento-sonho perdido.

domingo, março 23, 2014

Poderias ser a faísca
da explosão que sobressalta;
trazida pela maré alta
à luz do farol que pisca

ser o mote que se arrisca
neste bote ao qual assalta
essa onda que faz falta,
essa tua centalha arisca.

Poderias ressuscitar
o velho lobo-do-mar
que neste areal aqui jaz

à espera do ribombar
que os mortos faz despertar,
da alma os sais que ele traz.

sábado, dezembro 01, 2012

A Revolução.
Por um país livre! grita-se,
nos Restauradores.

segunda-feira, setembro 24, 2012


Movimento Perpétuo

Sou qualquer coisa perdida ali pelo meio
Sou um cavalo sem dullahan e sem freio
Que corta as estepes do tempo e parte
Rumo à nova era da qual são estandarte

A liberdade, lei de alma, o trovador
Que é o trote da agitação interior
Que é o eco da subversão que é o amor
pela Glória da Rima e sua sombra o Esplendor.

Nascem rosas negras d'Ele que as semeia
Pela Terra que é o Sonho em forma de Aqui
E ao arrancá-las em seu galope a ideia
de espinhos é doce e crava-se e Ele ri.

Rasgam-se as peles do cavalo alado
E tem-se um desenho traçado a sangue
De turbulência por um verde prado
Sob o céu da mística e um urro: "Kerrang!!"

Jorra pelos ares todo um mar que alaga
E de seu fundo um túrpido azul propaga
Sons de golfinhos e de ManOwaR os cantos
E das sereias voluptuosas os encantos.

Os tubarões exibem suas mandíbulas
Por entre a flora e as algas que ondeiam
E além das povoações que torno ao mar aldeiam
Soerguem-se colinas e é de sempre o vê-las.

De seu alto, num gesto triunfal me despeço,
Próximo que estou de em Valhalla dar ingresso:
Longe do que é parado, humanos e balística,
Ergo alto a minha Espada: a Verdade Artística!

sábado, setembro 15, 2012

P'ra um concurso de haikus, em que o tema é Lisboa:


Acordo em Lisboa.
Vou à janela e passa
uma gaja boa.

Sakuras em flôr.
Mulheres vestem kimono.
...No Cinema King.

Escrevo uns haikus
prá Embaixada do Japão
no café Nicola.

Regateio óculos
de sol no Martim Moniz.
Verão em Lisboa.

Ruas tortas de Alfama.
Velhinhas estendem roupa
e o Quim Tó trafica.

Chiado - tão chique!
Um freak a brincar co'o fogo.
Riso de turistas!

Aos altos e baixos,
o eléctrico para a Graça.
As sete colinas.

Manif no Marquês...
Consumismo no Colombo...
Rusga sem Piedade...

Lá vão os namorados.
Prostituem-se menores.
Mãos dadas, no Parque.

Marianas, Cascais:
um espancamento. O sangue,
e o Tejo a passar.

Ganhou o Benfica!
Saio da tasca contente.
As putas do Técnico!

Sexta tocá sair
e palmar uns telemóveis.
Sábado há feiras.

Os bares do Bairro.
Multidão, álcool e drogas,
e pancadaria.

Os bares de Santos.
Pitinhas co'o pito aos saltos.
GHB no bolso.

No Cais do Sodré,
tumulto: gente e táxis.
A Lua do Fim.

sábado, junho 30, 2012

Passa como brisa
um pulsar de inspiração.
Folhas que se arrastam.

Cócega na pele.
Um coração incumprido.
O chão amarela.

O tempo prossegue.
Silêncio e árvore são
o tempo a parar.

sábado, junho 23, 2012

Deixei uma nota à caixeira do Destino. Mas ela não me deu troco.

quinta-feira, junho 14, 2012

Dou por mim em mares improváveis. Suspende-se o ímpeto, turva-se a calma. Amarras por soltar e uma neura flutuante. Até quando deixo arrastar-se a alma?

terça-feira, janeiro 03, 2012

(De 14 de Dezembro à noite:)


Subtrai-se ao momento o real.

Subtrai-se depois à escrita o momento.

Epicismos, malabarismos, e descuidos.

Análise e leitura fáceis - o difícil.

E o repetir o zumbir em torno disso? (Exaustão.)

Não me conhecesse eu, e diria falta de motes.

Dela se parte,

em parte.

Aonde se aporta?

Ninguém sabe.

Mas lá pelo meio,

lá pelo meio

após o relâmpago

repõe-se o rumo interior,

um de partida

rumo à obsessão:

poder ou não

estar

no horizonte

feito de motes

e da resposta

à migração

que é querer ser,

Ícaro.

(De 14 de Dezembro, à noite:)


Uma mala e um filósofo. (Que complicação! exclama.)

O relógio pára e recomeça três vezes.

Terminal da referência.

"Estou. Logo, inexisto."

Gente a lavar no rio. Outros que passam.

As metáforas de sempre reitero.

Percorro. Respiro.

Cinza e calçada.

Corropia-se o passeio.

A cidade.

Dupla: tudo e nada.

As pessoas que vêm de encontro.

A atenção já mecânica de não esbarrar nelas.

Desvios. Guinadas.

Um vendedor de castanhas. Uma sirene. Vidas.

Movimentos e espiral.

De fora para dentro, e por fim, de dentro para fora.

Vento.

O vento leva já até as pedras.

Mistura-se o caminho de volta e a infinidade da atmosfera.

Carga e descarga.

Implosão, explosão.

Sobra o vício. Terra só no papel.

Agita-se. Soma-se e subtrai-se terra ao papel.

Como um garimpeiro que procura o ouro. Como um pássaro que debica por lagartas. Como um poeta que anseia pelo mote.

"Vida, vida, vida!"

Palavras.

Estrondos, um cataclismo.

Palavras.

Cenário. O último take.

«Corta!»

Metragem curta.

(De 7 de Dezembro, à noite:)


Um banco de jardim. O peregrino sentado, ou a não produção. Diante, a passadeira congestionada.

Percebe-se a hora. Dá-se passos. Disfarçando o ruído de fundo. Dá-se mais passos. Zumbido mais e mais alto. Acelera-se.

Um carro que quase o atropela. Algures no lapso temporal a atenção. Distraído pela vida, o gingar torna-se ritmo. Em redor, as luzes da cidade.

Há uma arena. Mas não há uma arena.

Há um caminhante que atalha o nexo. Alguém atira um pião. O medo de ele cair faz continuar. Pela tangente da rotação.

Agente que se infiltra na plebe. Que cumprimenta a meia proximidade. Que assim mantém por uma corda bamba o seu próprio entusiasmo e inspiração. Mas que começa a abanar assim que lhe apontam o dedo e o chamam de espião. Meta-teorias da conspiração.

O passo abranda. É agora?

Uma esquina. Interrupção.

Há um estrangeiro que pergunta o caminho. "Where are you headed?" "To discover." "What?" "To where I'm headed first. Then, whatever there is there to find." "Oh, ok. Hmm let's see. That's a tough one.. You know, whatever - Just go ahead and take a turn around the corner. You see the people there? They should be able to tell you. Why don't you go and ask the people?"

...

"But I did. I just asked you."

Asserção certa. Mas certeira?

"How should I know? Why do you insist?"

"Because you're headed there too."

"Oh, give me a break with that misplaced yearn for direction of yours. Go ask someone else."

"The thing is, it's not just about a goal or a place. Not anymore."

"Ofcourse it is."

"Well yes. This was a question about direction.

But what matters now is that you hold the answer.

It is you who shall show me the way.

This is, as of now, about you."

"That can't be. No, no, no. That makes no sense. Who the hell are you after all? Jeese!"

...

A arena aparece agora completa e é circular. Dela, um palco para a imaginação furtiva, que espreita sempre atenta entre as pausas do zumbido, no zumbido das pausas. Flectem-se as garras as quais teimam em desferir continuidade. O domador dá sinais de cansaço. Uma noite que se adensa.

O peregrino deu por si a dormitar. Acorda agora.

Em redor, a cidade sem questões. Está-se sentado num banco de jardim em miniatura. Esta e outra árvore desfolhada permanecem lá. Trejeitos bucólicos de Natureza dispersos pela urbe de pedra e asfalto. Pretensões citadinas, o glamour das mulheres, a poluição dos carros, tudo assenta e perde-se na noite como uma luva de pele. Exterior. Distorções do século XXI.

Mas eis que é hora de retornar ao sossego absorvente do lar. Mete-se Björk, Faith no More, Morphine, Smashing Pumpkins, e peritos outros na arte de serem absolutos na arte. Aqueles por cujos moldes paralelos que constróem se e os ultrapassam e são deuses. Deuses em seus mundos remotos que quase nos abstraem do erro e da presença não divina. Respira-se.

Dorme-se pacificamente o hoje. Amanhã um passo a mais ou a menos ditará enfim as respostas.

(Espera-se.)

O diálogo, em vez do burburinho de fundo.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Cara R.,

Fraqueza é atirar pedras do alto de uma varanda improvável. Não me recordo de motivos.

A moral, procurares telhados de vidro por outro lado. Ou então o teu reflexo neles.

Amen.

domingo, dezembro 04, 2011


A resposta, será que está na arte?

Sim. Já nas bancas: "Menos Platão, mais Prozac" :D


Pensar na vida = foder uma actriz porno.

É não saber responder à questão: o que é que é a sério e o que é que é a fingir.

quarta-feira, novembro 30, 2011


Era uma vez um Samurai. Principia-se assim desta forma duplamente tradicional.

Há pois todo um leque de tradições que se desdobra. Numa cadenciada abertura, empresta ao ar a clássica brisa ligeira de Primavera. É daqueles leques cujas dobras contém pequenos círculos coloridos, e uma figura central de uma ave contida num outro círculo um pouco maior, ou foco.

Por qualquer propriedade mágica, vai reportando ao verde das colinas do Japão e a um inteiro vento que sopra de sob as anteriores lufadas de ar. Um e outro abanão mais vigoroso ou arritmado despedaça a camada envernizada do sítio anterior, onde era o leque e a realidade teórica.

Súbito, diante, todo um ancestral vale nipónico o grande jardim em bruto, a Natureza - arte terrena o espaço de ser, e raízes e arbustos. A nitidez.

Soergue-se um Samurai de entre os pinheiros para um trilho mais aberto que descende onde é a imensidão verde e o céu aberto. A poucas milhas, de onde ele veio, há pendões quebrados por uma clareira oculta na vegetação mais interior da colina. Dá para perceber pelo seu cambalear que se travara uma batalha. Entanto, há algo de sereno no seu rosto marcado por cicatrizes antigas.

Junto a um tronco recupera um pouco o fôlego. Assiste nisto a uma cena simples que por algum motivo o comove.

Uma criança corre entre os prados abaixo. Ante ela, uma garça branca que ascende. Corre movida pela energia e pelo fascínio, os quais persegue acelerando entre os bambús. Rumo ao horizonte com o qual a garça se funde. O branco a côr da inspiração. Cumpre com os seus pulos ainda este ensaio de sonho, os braços bem esticados e as mãos bem abertas.

Observa complacente o Samurai do presente este poético retrato de a infância estar presente. Neste percurso pela paisagem acidentada, uma criança persegue o vôo da garça. Algures num vale em que são remotos os feudos e a civilização, essa breve inconsciência reproduz na alma do Samurai um sorriso igual.

Por algum motivo, a sua vida passada atravessa-se também no momento e desfilam algumas recordações. Lembra-se das suas batalhas. De quando a loucura afirmou a sua defesa, uma espada a levantar. Ser Samurai o recurso maior. Do que ninguém respeitava, soerguera-se a sombra da lâmina afiada. A imaginação e a identidade encontram o escape na distinção, na loucura, ou na presunção delas. O resultado evidente, o recato maior nessa mesma diferença ou isolação. Os tempos são Meiji. Mas ao menos a viva aspereza de suster uma cruzada fez-se sentir no pulso, uno e refortalecido. E as mil perseguições conduzidas pela Guarda Imperial... e a respectiva resistência... E as viagens várias a que se entregara pelas aldeias da região, peregrino solitário entre muitos. E os templos budistas de adoração e estatuária em que seguidamente se deteve. E a alternância cada vez mais acentuada destas duas faces de moeda. Até ao dia de voltar a afiar a espada e travar outra batalha.

Já a graciosidade da ave que se eleva pelos ares arrebata qualquer um de sua mónada.

Há simetria na corrida curva e solta do rapaz pelos prados face ao arco que desfere a garça em antecipação de procurar nova rota, para onde os rios fluam e cumpram com o fluxo a sua sede. Por sobre o míudo que estrebucha lá em baixo, à pequenez da aérea distância um mais ser qualquer incapaz de voar. Por um instante é manifesto entre o bater de asas suave e firme um certo instinto do afastamento, dados os movimentos menos óbvios do petiz. Comum defesa genética ante eventuais confusões maiores. Na realidade do equívoco dela, tais desvios e precipitações pintam sob os céus mais uma variação da beleza da dança deste ser alado. Porque são sinceros. Porque são apenas sinceros. Porque não são outra coisa que simples e sinceros, no claro e definido que precede e é o do vôo continuar.

Num outro lado da vastidão que é a paisagem, a calma pensativa ou a tendencial reserva do Samurai pouco poderá apôr às árvores do bosque. Não mais se retém a viagem da garça, que sobrevoa por fim. A estética auto-contida nas observações do ferido em combate - um reencontro com o rapaz que corre os seus motivos simples, e uma apreciação ao de leve da consonância da garça com os céus e os ventos. Do que é reprodutível disto, a arte do quadro que consiste na essência do resto. Não releva, não é meio nem é fim, mas é inevitável que exista, por haver espírito, este suspiro Caeiriano de traçar com a vista as pinceladas simples que são a criança a tentar o entendimento físico do azul dos céus ou a alvura sublime de os atravessar. Por haver espírito, e se o ter embebido de algo de novo e belo, há antes de mais que deixar expirar o fantástico desses traços ou contornos (óbviamente por expirar), neste que é também e ainda um alternativo acompanhamento estático da criança a correr.

Percebe-se entretanto um pouco mais da serenidade, quase doçura, com que o Samurai fita e transcreve em seu olhar a criança ora ofegante e de mãos nos joelhos. Ele está resoluto. As suas mãos procuram o tantô. É um olhar de despedida.

Porque ninguém lhe deve a continuação de uma batalha proscrita. Porque não há direito a exigir que se feche os olhos à derrota tida. Menos ainda a retomá-la com base em respostas ou argumentos mais. Que quem lhe desferiu o golpe terá as suas próprias batalhas para travar. A batalha era tudo o que pedia. A batalha foi tudo o que teve. O cenário não podia ser mais perfeito, a oposição não podia ser mais apropriada. Não há nada para vingar, nem houve jamais.

O sangue que escorre dos membros do Samurai traduz-se em reminiscência de dôres antigas.

Da parte da derrota que é relativa ao inimigo, subsiste apenas uma melancolia semelhante à da ave descrever uma curva exterior na sua migração itinerante.

Hoje caiu, tropeçou, e arrastou-se pelo chão. E, após repousar sob um pinheiro, teve um esgar de alma afinal ponderado, não feito do desespero ainda que este estivesse lá. Opção, e um tudo nada de altruísmo - o antigo e nobre reduto - Seppuku.

O seu corpo enfim cai com um baque digno de um animal de porte. Num desfecho porém que sintetiza a diferença de ser humano, e que o faz transcender um desses outros animais parados e subservientes. Arrepende-se o Samurai do desfecho? Por certo, pois não o quis. Mas não se arrepende o Samurai de si no desfecho.

Como sempre, agradece-se ao próprio verter do sangue a possibilidade que este lhe oferece de depositar pelos verdes solos desta nação perdida nas eras, uma mais marca de passagem. Rubra e quente como um pôr-do-sol.

E de todo o exagero que se põe na vida e na arte, de todo o não ser mais que metade o que se escreve ou tenta, de todo o floreado e de todo o erro, acresce por fim um sentimento claro e inteiro. Uma última expressão do sol, quando tudo perde a côr, e que consegue ainda surpreender o Samurai nesse seu abandôno.

Felicidade.

Porque tal como o vôo da garça se não abate no além, paira a noção de que há uma outra simetria - ela também já foi humana. Em todas as suas limitações. Em toda a rasura da sua condição. E constata-se qualquer coisa mais que a fineza da curvatura do seu pescoço esguio na velocidade do seu vôo, mais que a envergadura e a beleza de suas asas, sob a frieza cândida com que almeja o céu o seu olhar, e que decorre de ela já ter sido humana, e de o ter sido muito mais do que à vista desarmada pudesse aparentar.

É na partida do guerreiro que chega a confirmação, sem pensamentos nem dúvidas, e irreversívelmente, da equivalência de espécies. Sob a forma de felicidade por uma garça ter aprendido a voar.

domingo, novembro 27, 2011


Saio enfim à rua. Um sol grande cumprimenta-me a dôr de cabeça. Como uma carícia que guarda em si uma certa aspereza por ter deixado a manhã passar. E as côres intermitentes que se colocam aos poucos em fase, num background anónimo... Como numa fotografia exposta em demasia, da qual se deixa esbater o relevo e o além.

De retorno ao quadro soalheiro, consistente em a passada recordar-se da calçada estar ali, a noção branda de perpassar a vida da cidade. E é mais um fim-de-semana que se escorreu no recosto de uns lençóis, como fios de água que se entrenham entre as pedras e se precipitam para o esgoto. Na lateral do caminho, faíscas de sonho ora as beatas extintas por aqui e por ali.

Impõe-se o dia e a vida. Se tivesse que fazer uma peça grega em que um personagem simbolizasse a Morte, chamar-lhe-ia Domingo. Mas não são esses a era e o papel que me estão destinados. Devo hoje sim assentar ao de leve na passagem, encabeçar a máscara de estar de passagem, pelo tempo estritamente necessário até retomar o posto de observação do qual então extrair este trecho. Paisagem ruela de atravessar dois pólos de no fundo a mesma habitação - a do costume.

Ir buscar sim, à Grécia Antiga, alguma estátua do Propósito. Essa sim, a verdadeira meta possível por este não percurso ou descrição. Um outro roteiro de um qualquer místico cruzeiro, e uma qualquer ondulação mágica que então aporte a novos cais ou planetas. Articular então pelas entrelinhas a missiva de uma partida próxima.

Ensaia-se nesta bilheteira que é ainda as traves de uma outra e os pregos, por tatuar na rotina da madeira essa tal aquisição. Veremos talvez um dia o que o nevoeiro do oceano nos reserva. Para já, vive-se este seu sôpro dissimulado pela realidade urbana. E imprime a sua fuligem um distante esboço de arquitectura e embarcadeiro no invisível do lugar.

(Da noite já alta de 22:)


Calcorreio.

Divago.

Prendo as mãos e os pés. Sem dar conta disso.

Bolas, e agora? Estou amarrado na cadeira e chama-se desnorte o meu carrasco.

Grande, opulento.

Não só o tédio que entretanto se entrenha, o principal inimigo sou eu. Uma desatenção ou interferência desnorteou o percurso e quedo-me ali naquela esquina que é sobreposição de hologramas de cidade.

Sem me dar conta, não consigo.

Aúúú.

(Da noite já alta de 22:)


Apagar tudo é o remédio?

Mas... e a seguir?

Diria que é só uma forma de pautar a actividade de estar a olhar para o vazio.

Da mesma forma que martelo cadenciadamente estas teclas. Sim, dessa mesma forma.

Em termos de erros é preciso repetir essa mesma análise.

Não concordas, meu?

Nah. Seria fácil.

Esta é de resto uma hora fácil. No sentido em que se opõe ao difícil. Mas. Sem mais desvios:

Meus caros, eu quero é saber o que fazer deste incontrolável.

Que me impele a zás zás e a mais zás e até a mais...

Zás a mais.

Repetição o motor? O trecho imediato, mais de todos imediato, em termos da facilidade com que o motor de inferência encontra ou estabelece como resposta - uma vez que está ali à superfície da memória.

Trata-se no fundo de desaprender a mania do contexto. Sim, esse drama.

Lubrifiquei a chama, e ela ribombou antes de fazer um ruído pasmo.

Adociquei a hora e ela trouxe-me este vendaval de pequenos monopéptidos.

Quero urinar do alto de um prédio. Esta sim é a minha resposta para a desolação que todos vivemos hoje.

Nenhures vive por violentar.

Existe prédio no drama.

Como ultrapassar a noção escrita da escrita? A inflexão da reflexão? Como?

Desmoronar a sequência. Porque há xilofones nisso.

Preencher o vazio de corropio.

Exaurir a meta ou metáfora. Que é e que somos.

Minha nossa senhora!

Debicai livremente, pássaros de nenhures, sítio universo. Extravasai as mãos que vos sustêm. Aúúú. Uivai até, desafiantes. Desafiantes da condição vossa.

Aúúú.

(Da noite de 22:)


Salas que dão para outras salas. Da arte a arte é querê-la. É a sombra impressionista de algo, a atravessar as salas de um castelo que se diria interminável... Perdendo-se a arte sempre que se fecha a porta. Dormindo-se a arte sempre que a escuridão da hora avançada a absorve.

Temíveis são os passos que as trevas propagam, à nocturna melancolia do castelo e sons de pêndulos, passos de aterradoras criaturas cujos vultos híbridos de lobo e homem passeiam pelos telhados. Podemos chamar de mero exercício de lúgubre, como quem diz "é só um filme, é só um filme, é só um filme". "Vai tudo correr bem, vai tudo correr bem". Mas podemos entrar por ele adentro, habitar nele, ter insónias nele e tremer até aos ossos.

Filme de autor que marca e demarca o raciocínio de estar, mas que rápido é outra pele que cai à hora de apagar o projector e deixar arrefecer as queimaduras. Carne-carvão que relaxa e adormece Inverno dentro.

Antes do tempo o tempo do antes. Momento inclinado numa travessia paradimensional do conceito de atravessar que é em si fim de si.
(Da noite de 15:)


Após remexer do caldeirão n emoções acumuladas em seus fundos, e deixá-lo transbordar um pouco, é difícil interromper a sua fervura. Da rotina repara-se que falha de novo a distracção.

Busco pequenos trechos de arte para carimbar ou lacrar o desconsolo da noite, envelope cuja mensagem fria é estar vazio.

Da lacra derretida em vácuo, algumas queimaduras bem patentes.

Principalmente a insuficiência de tal escape (ou deste, lugar tão comum).

Toda esta sopa, e um só estômago indisposto...

sábado, novembro 12, 2011


Timbres negros os contornos
da funérea procissão.
Marcha sem real razão.
A loucura e os transtornos

em forma de símbolos môrnos
do desespero sem causa
na tempestade sem pausa
de uma poesia a transpôr-nos,

emoções negras e trompas
a soá-las estrada fora.
Circunstância e pompas.

Extravagância soturna sem pudôr
de majorar do sofrer a Hora:
além-ânsia, da violação o ardôr.

--

Possessos seres os grifos.
Esvoaça-se todo o Egipto
de amplas asas e um grito.
Fendem da ânsia os cacifos.

Morte alada que sobrevoais
espectros de mitologia
e a ainda maior fantasia,
rapinar humanos; ódios tais.

Encabeço a figura da ave.
Justiça com as garras proclamo
e a carne não lhes é entrave.

Fado merecido p'la arte trucido,
que até o próprio Zeus, meu amo,
p'ró homíneo banquete convido.

--

Pinturas de côr desalmada.
Limpa-se o vermelho do queixo
e a figura em arte deixo
da proibida fome saciada.

Sobre a negrura é alada
a rima-vingança atroz,
do poeta a terceira voz
misantropia consumada.

O tempêro quente do excesso
é o sangue na noite gelada
a irrigar malhas que teço

tôrno à hora fria do ingresso
p'la Catedral que é o Nada;
À dôr e à raiva agradeço!


Grafias e grafismos fáceis. Deixa-se trilhar a inespecífica missão do deixar trilhar-se, adocicando a impaciência de alma. Faz-se.

Uma criada que traz uma agradável taça de laranjas frescas.

Reúnem pois o farto cabelo do Marquês e o agudo discurso de seus convidados, em entabuladas peripécias de uma dialéctica arcaica e estética. Há jardim.

Discute-se as próximas medidas. Como fazer crescer o reino, como desobstrui-lo dos interesses paralelos e estéreis dos Távoras, como encabeçar este País em que a anarquia é a regra real por detrás do mundo de regras.

O mesmo num hemisfério carnal se define, a dança de egos no planeta de Ser. Regra delineada pelos Antigos. Circunvalação. Pelo diurno e nocturno, cintilam prosaicas distâncias à luz desse mesmo firmamento. E regras e protocolos por detrás dos quais é sobretudo o querer mais e mais, e o estabelecer-se socialmente o poder de quem o detém. Toda uma constelação que se define contemporânea de Newton. E hoje se conjectura cómodamente por encostos, nesta confraria de almas que é também caudal de cometa.

De súbito nasce poética e bela uma espontânea imperativa. Aniquilá-los. Que linda e preciosa semente, que perfeita antevisão de rosas sublimes e seus espinhos. Empolga-se a burguesia, os médicos entusiasmados à medida que a imaginação rasga e perfura a pele da dôr para deixar sangrar e florescer toda a fertilidade da sede e dos solos de sua sede.

A criada traz agora um requintado aromático vinho, enquanto os presentes encarecidamente discutem os instrumentos que mais cirurgicamente poderão dar voz ao festim da mortandade. Como a altivez do horror, um belo sol vem agora incandescer o fim-de-tarde, enquanto num entusiasmo soberbo se saliva e limpam-se os dedos, após a dupla dentada nos gomos sumarentos como as veias mais nobres. Um prazer místico cresce e funde-se com o propósito e a sociedade. Instala-se neste promissor Verão, para além dos planos de metas e conspirações genuínas, e por entre as finas dobras de tecidos voluptuosos, o real sabor do sangue na acidez da laranja.

Mancham-se as vestes de mais que um sentido de Estado que transborda. Enleia-se no formalismo das almas o vinho e a fulvura de seus encantos. Verte também na alma o requinte da crueza com que a lâmina repartirá cirurgica a opulência da classe mais alta, estrebucha na alma a mesma vítima inesperada e de suas gôtas vitais a rubra intensidade de seus berros, enquanto sábias mãos estudam a fundura de suas vísceras e se enaltecem da real putridão de seus fígados, enquanto os dentes mergulham e testam a suavidade dos pescoços trémulos e o som de seu pânico se engasga e escorre e morre lentamente.

É Noite; o Sonho desponta. Alto por fim o seu alvor redondo e completo. Ritual e transe acariciam aos poucos esta imagética comum. Fervilham palavras primeiro. Alguém sugere, divino: e se brindássemos mais que o próprio brinde? Ao princípio ninguém percebera. Nem o próprio. Levantava-se taças, ecoando pelos ares o tinir da anunciação. Bradava-se, as gargantas mais e mais inflamadas do pudor e o seu esvair-se acompanhando a secura. Porém, e agora que a Lua tudo ilumina, cedo as mãos se roçam também, ao princípio como parte integral e secundária dos movimentos, inevitável dada a expressiva força do embate. Entanto, de toda esta cosmogonia cedo se clareiam as peles de uma ânsia maior, e maior ainda a cócega de sustê-la na fineza de um brinde. E as mãos se provocam ardilosamente à sonoridade do toque. Tlim-tlim. E os punhos reajem fortes à tremura maior, e se estilhaçam taças e o sangue corre fraternamente entre as mãos que se percorrem e os caracóis que se entruzam, e é com a filosofia maior dos corpos que do Universo dos Gregos o Esplendor de Roma se promulga hoje neste anfiteatro supra-político. E as mãos decretam a Nova Ordem com o ênfase com que no sexo alheio depositam o ardôr de se entressugarem visionários.

...

Que vórtice de conhecimento! Que pasmo e êxtase, o do palato no qual se disseca o amargo do sémen. A real soberania, escrita na biologia dessa real semente. A Magia de que se tingem as rosadas feições dos homens dessa era. Deus contido no Hirto Falo de Todos. Espuma divina com que um mar violenta toda a planície de uma Pátria ou cultura.

E os Homens embrenham-se em lenda e futuro. E os sonhos canibais explodem entre o amor conforme o ditara a necessidade. E a Liberdade, conceito tão másculo e penetrante, cada vez tão mais perto, como a respiração quente do Conde saciado... O Amor pungente, e o extermínio dos Távoras, e o desfolhar-se a mística das árvores e do centenário... E uma criada que se afigura claramente a oferenda ideal para a divindade do Amanhã, que é esta noite... E as almas entrusadas que se alinham em experimentação da mais sórdida e profana...

...

Do Esplendor da Noite, um pequeno montículo por entre os canteiros e um cão que por algum motivo insistentemente fareja em seu redor. Percorre a Aurora as recordações enterradas. Complacente da serenidade com que a manhã lava as côres do jardim, instila e contempla o Marquês, encostado à mesinha do Ontem, um terno sabor a Morte.

«Alguém viu a criada?» pergunta a Marquesa.


Êxtase, caos, destruição, vento, que sopra e que sopra agreste as paisagens, o inferno, a imagem, o inferno da presença, o interior ...

Território, equilíbrio, desespero, terramoto, fendas de fendas.

A queda.

Extasis flows through the keyboard like emotions rampade through the valleys of image and projection of the soul - abyssic nothingness that is art; meaning, lost.

Found insanity repainting the painting of strangest whirling shades of darkness; hidden desires as abstract as the whispers of the clouds in the everlasting skies.

Lost warriors, their flesh scattered through the impressive woods of fantasy dripping through the gelid of the morning. Remains of civilization, spoils of war, liberator to come, the eclipse shining the all-ever sung apocalypse.

It is coming!

Dissera o poeta: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."

Digo eu (e ele) - É a Hora!

Que a Terceira Vontade
se imponha no amarelo
do negativo sem belo.

Que haja Voz e Liberdade!

Que se retrate do caos
a beleza de eu sê-lo,
a morte de eu vivê-lo.

Do vazio vácuo as naus!

Do clássico rompante
dos mares sempre a montante
há a enorme montanha!

Do turbilhão a cidade.
Ruínas e claridade.

Um topo, ao qual tudo acama.


(De terça-feira:)

Das fórmulas o fascínio, o mote para uma navegação esta em que é pântano o diálogo de crocodilos e mosquitos que são a adrenalina ou o momento, instalando-se muitos e discretos. A cafeína dilui-se nas veias como um composto qualquer incómodo, ao qual se pigmenta o explorador do chapéu inglês numa queda transversal às golpadas de ombro e face com que a vegetação cumprimenta verde e mística o celofane dessa rede circense que sustenta mal o peso das circunstâncias e consequências. Ora o megafone existe então, num peito químico como a fórmula do fascínio, que inaugurara todo esse mesmo espaço, por espectador os primatas assentes na bancada arbórea e o seu ruído, frutífero entre pontuais raios de um solar e agressivo holofote, algures entrevendo-se a arranhada resistência sobre o bote.

Dá-me um par de estalos, a frase rompante e masoquista que é o tigre que listra adjacente o percurso, ora mais e mais o salto pelo aro de fogo em que arde a rejeição e o espectáculo. Um esvoaçar de aves, uma bala de um canhão, mais um café, e os gritos e o terror quando o denso verde se acastanha espiral e a madeira cede num rugido faminto e o avião que era a narrativa se propaga na descida nebulosa e a aceleração é ora propagação explosiva, reservatórios inflamados num horizonte temeroso ou pós-guerra. A chama, anunciação dissidente do além-mar, distância medieval e monstruosa. Abíssica dentada desfere o felino ainda, insaciável como a vida.

Então, Ele escreve a petróleo no fundo e à tona do mar que proclama a fornalha comum. «Não há lugar para ventos de intersecção no vácuo do texto!» Sopa de letras que se esboça aérea, a distância ilusória dos pára-quedistas estropiados de centelhas nessa chuva apocalíptica.

Ego que colapsa e ricocheteia ante o tecto e solo de si mesmo. Ecoa ou reverbera hoje num curto lapso de percurso, por esta boleia em que o tédio traz ao lar a novidade, e ante este exercício de exposição artística em que o monóculo de apreciá-la é uma distracção nocturna, recai pois como um estilhaço de monóculo uma verdade inesperada por detrás de uma imponderada análise do impacto. Não no espelho de uma qualquer sala mas do outro lado, a própria imagem. Cai súbito sobre a distracção a noção clara como um quadro de museu, que lá dentro da obra que espelha, está algo de igual, perfeitamente igual a mim mesmo. Não igual em como sensações ou expressões se fazem assemelhar, tão pouco igual em uma determinada metade de um todo. Igual em como uma equação faz equivaler duas expressões diferentes da mesma matéria, matéria de um outro planeta indeterminado. Matéria que contém em si um raro ensinamento inexpressável, uma rara síntese e centro de diversos pólos de existência, algo que só quem conhece tão profundamente como ao próprio pode identificar.

Estranhamente esotérica na fotografia, a clareza desta nascente é de uma evidência tão transparente que se estranha. Era essa então a consistência inexplicável do rio, aquela ténue assinatura ou resquício vibratório de sua ondulação era afinal uma familiaridade inconsciente, sensação invulgar e de difícil cifra dada a rareza de tal simetria na passagem distorcida.

Desemboca-se pois num limiar emparedado mas que é também equivalência, e há beleza nisso, não havendo própriamente porto qualquer nisso. Resta só a questão próxima: aonde me leva este um café mais.

domingo, novembro 06, 2011


Que a loucura se instalou quieta.
Pelos passeios do passado veio a pé
dissimulada de pedinte ou de André
a tomar conta da esquina onde inquieta

se espartilha a viagem, linha recta
de um encosto ou consolo que era fé
por templos urbanos fáceis. Nhé.
Da rotina a paz de alma ora insurrecta

era falsa e veio baldear o instinto
a imagem de uma esquina em que pressinto
um vendaval de estilhaços de casas

e lestos membros voadores que finto.
E tudo isto dissoluto em absinto -
tudo isto, envolto em nuvem de traças.


O êxtase do absurdo...

Outra vez as paredes ganham disformes colorações e astros se entrenham na clarabóia translúcida de um céu estranho.

Estética infiltra-se no sentimento. Loucas projecções astronómicas de um ser inflamado e que se eleva, azul forte e paralelo pela bruma.

Por cauda os cabelos revôltos, crescentes e em passagem. Iconografia e o extravazar de loucura a tomar conta de mim-noite.

Um "Ah" perfurante a interjeição. Caem e recaem crivações e crispações o colo de um chôro novo - parto, parto e parto ainda.

Espécies num parto único - a pequenez da ficção a marcar pungente o idioma e universo. A loucura outra vez. A loucura ainda e sempre. A loucura aqui ao meu lado, a ditar e a escrever o ribombar de mais este relâmpago. Céu físico por cima, tão por cima, tão pesado...

Brilho amplificado agora, vidro estilhaçado agora. Música que esmaga, música que alaga de caos e brilho estes.

A agressão de ser em reviravolta inesperada, toma conta e destrói. E é todo um Nada. Que se pinta que se vive. Tôda a míriade antiga do que é dentro e sempre o foi. Toda a miríade sonhada cada vez mais forte e imagem. Confusão mais e maior, o espanto, um quase terror! De tudo isto e o volume e tudo isto mais.

O medo de levar-lhe a mão e ser real... o medo de levar-lhe a mão e estar ali. Todo este sem-fim... (momento crédulo)

Por um momento mais,

deixa-me vivê-lo, deixa-me querê-lo, este pedaço mais

de loucura em meus anais,

de loucura em meus quintais.

E era uma selva,

que se cerra.

sábado, novembro 05, 2011


Por entre as trepadeiras do quintal
um desalento verde e o mural
de haver o vento a agitá-las e um sinal
de haver a alma a abandoná-las e a cal.

Espaço de desmazelo; uma miragem
que é todo um novelo e é a aragem
as garras afiadas, uma margem,
a loucura afiada em camuflagem

e uma arte que se esconde no ruído
do soneto ou da pistola o alarido;
dar forma à côr de haver um sentido

no barco que navega esse instante
parado em ser pintura o almirante -
pincel, tigre, arma, um rio vazante.


A caminho; os contornos
de nada com nenhures são
por entre nenúfares o não
entendê-los; claustros mornos

que ilustram a poesia
de ser que, mais uma vez,
o desdizer de um português
entrusado em distonia.

Sua loucura uma que sua
ao calôr de não soá-la
e extravaza feita a mala
o rio que é o brilho da lua

e o frio dos glaciares -
epicismo, uterina nostalgia,
ou lembrança outra ainda mais vazia
que ecoa pelos cantos lombares

o trote nessa mesma planície,
estepes de o sonho perpassar
a gaivota, o momento a sobrevoar
a viagem e o vento que esqueci.

Tudo atrás; para trás, lá atrás
ensinamentos que perdi
nos entroncamentos que vivi
sem saber quando e onde - tanto faz.

Alma que vagueia à sua sombra
e é de mim escrevê-la um outro eco
o sentido que vagueia e é o beco
em que se perde e chama de penumbra

a luz do passado e o escuro selo
de a poesia perder significado
à luz de um candeeiro tresloucado
em não iluminar que o amarelo

do papel da carta sem destino
e um adeus que por ela estrebucha
entre os dedos e uma rosa murcha
que um dia floresceu sem destino.

E assim se perde aquilo que era
a pureza de um poema sincero
por uma turva fogueira; incinero
a correspondência e é sincera

da chama a transcendência e bela.
Todo um vermelho que é quente e diz
aquilo que em mim derrete, e diz
a perda que em mim verte o som dela.

A crepitar, o nocturno do oceano
é em meu lar uma quimera velha.
Nada é mais verdadeiro que a telha
que alberga esta fera e este insano.

Loucura fora de era, a minha sina.
Palavras sem cabimento. Destroço
origamis e o momento e um qualquer esboço
da morte em sua dobra, a lamparina.

Desfaço a alma num sofá gelado
e regresso aqui ao sítio e à sala
onde a orgia do poema é a tala
de quebrá-la e ao gesso molhado.

Mil esboços negros e a loucura
a única acompanhante. Mar quebrante.
Insurreição e advérbio a juzante.
A espuma ele engasgar-se em sua usura.

Imagens de arcaboiço num trejeito
de dar forma ao informe de a curva
se ter dado por ali onde era ruiva
a côr de a maré ter passado. A eito.

Soçobro colorido que desfaço.
Mar agora desgarrado que abraço.
Café que tomo e é um outro braço.
Dôr que pinto agora, fim de maço.

Adormeço e pinto em mim uma nuvem
descrevendo a cinza de um cigarro
que é ainda um comboio e desamarro
dele a tinta, o trilho e a fuligem.

Para uma fantasia ainda há tempo.
Para uma variação de uma morte
há sempre espaço e a agonia consorte
é sempre do agrado no seu tempo.

Que desvaneça pois todo o espectáculo,
fluxo de rio no mar do vernáculo
onde há sempre do polvo outro tentáculo
a abraçar dançante este espectáculo -

o momento que antecede o seu veneno.
Incerta a dança - abismo ou sintonia,
ondulação que entrança a alma em maresia
de uma alga formar um sonho pequeno.

As partes de seu côrpo a última voz
estendidas ou debruçadas na areia
de dizer ou procurar o que clareia,
e a dôr por fim do não alcance, a sós.

quarta-feira, outubro 26, 2011


(De sexta passada, à noite)

Revôlvo e procuro a criatividade, numa elevação em catadupla que é falsa matéria - agitação; estremeço a hora e calcorreio neste frémito absurdo caminhos entrepostos, extravazantes artérias entroncamentos do cerebral maquinal aldeia; acordo, e constato que acordo, e discordo, e acordo, e discordo; Disco, o disco, o disco! que gira e toca e gira esta sobreposição repetente de indormência, estrebucho do sono não-sono que é querer, querer voar, querer soar e ultrapassar a mera métrica, ir além de rappers ou rimas (sonoras). Tudo porque há que acreditar, no maior, no eu maior, no ego de persistir que é o motor objecto disto; Ela, aspiração, Cafeína. (Ritmo ou sequência Maíusculas.)

Oh, a destruição pela positiva que é enquanto se acredita e os gongos do agora são suficientemente ensurdecedores.

Oh, o caos simples que é o gerar caos pouco simples, extempérie de partes recicladas do Propósito Real que é por lá por "onde", e cuja latência pende e verga e se torna enfim geradora - há forças motrizes por detrás dos vernizes, do estalar dos vernizes; dizem as não-revistas que onde há vernizes há varizes; acredito mas desacredito, pois:

sei lá, é tudo uma questão de (outro) não forçar na interpretação e de verificar, agora sim, o espaço em preenchimento, mutante de potencial, ebulição e confusão a acamar na coragem expressa e confessa que será então o novo papel da Humanidade.

Oh, Oh!, interjeição de mim. Alunar no antigo antigo, o início, a parte que é constante e subleva o carnal animal dispersor, alguma viscosidade da demência apenas como o enxôfre que escorre das partes musculadas e vivas, bem assente e firme o Minotauro cujo cotovelo é assente em força e prenúncia no joelho de flectir e preparar, personificação do animal estar à tona do labirinto e silenciar agora o esbaforir incómodo ausente.

Tresloucados vícios e derrotas os despojos só. Agora é... é....

Quem sabe. Amplificadas as virtudes mas também o difícil, espaço megafone do indefinido, de tudo um "quem sabe?".

Quem sabe.

Desistência ou descanso?

Quem sabe.

"Sabes?"

"Sim sei. Relaxa."

"Mas eu estou, é isto."

"Bolas, bolas. Vou agora ter que explicar que não se trata de te acusar que não estás? Não. Se estás estás. Se é isto é isto. Mas não vou nem dizer nada disto que (e até porque) apenas fiz eco de sequer pensar que, Bolas! nah."

«bzzzzzzzt» (som de circuitos) "Sim, mas eu não disse isso. Apenas disse isto."

Cansaço.

Adiante - Que hoje é um tão novo dia noite. Tão maravilhoso quão os grãos de sol e os raios de café brilhantes exilerantes.

Oh, máxima país, ciência-prazer de reportar ao e dirigir para "lá", busca-fazer de não mais sentir, falta do isto, de não mais sentir, isto-aquilo, de não mais sentir, menos, de não mais não mais, não mais.

Romper com as amarras Zen do perpetuar, fórmula permissividade, pouco.

Ah, mundo-droga e "e"s tantos.

Ah! Oh! Uh! (Citação de filme do Bruce Lee. É só cultura.) Mas chega. Saio do palco película. Exaspero mas não desespero... Uff! Aguentei-me à bronca. Que treino. Que Nortadas. Que desnorte. Uff! E suo por todos os poros.

Como o cancro é a morte do reles plebeu, o avc é a morte do artista.

E que morte.

Uuuufffffff (isto já não sei de onde é que estou a citar. Fica pra quem quiser sitiar. Ah boa, dos Sitiados. O quê só porque o nome é parecido? Isso e cenas.)

Isto e cenas,

resumindo

e conclu-

A

V

C


(De quinta passada, à noite)

Olha. Um blog que fala.

"
Fake.

O que é que tu queres daqui?

Fake, fake.

És tão fake.
"

:\ Pois isto hoje não dá. Empenou.

-

A questão aqui subjacente é que o tempo da acção não é o da reflexão.

De todo.

Alimentar a alma, o mote primeiro e único. Só depois o depois.

Não há um antes.

Tudo é zero e do início; efervescer com a chama, ou deixar cair as cinzas e respirá-las lentamente em asfixia - esta a bifurcação. Nenhum ponto morto.

Nenhum desvio; as ilusões e o escape criativo atropeladas na esquina dobrada e desfeita.

Assumir; dar o peito; ir em frente. Com verdade. Com toda a verdade. Nada mais.

Da coragem, e cenas.

terça-feira, outubro 18, 2011


De regresso à estrada pouco alumiada do que não é real. Por passageiras sugestões de claridade se participa nesta não-viagem...

Se é verdade que nas noites em que o céu está pouco claro, o brilho de um cometa incita a que os espíritos perplexos se arrastem consigo, não menos o homem se queda entregue ao trespasse pela essência escura e contrária em redor. E pelo campo afora tudo o mais é tão naturalmente indistinto e mistério quão as luzes escasseiam mais ainda, as traças o que resta visível da noção desconfortante de baldio.

Candeeiros trémulos... Para onde? (E a razão?) Pisa-se na medida da demência a entrega ao nada, tendo por escala ou destino certos a insolvência da viagem, o estar-se perdido nesse mapa astral por trazer no bolso físico. Eleva-se para se entender que a altura é ou tornou-se uma espécie de colapso com a falta de sustento, a consciência dissimulada de tédio e vice-versa escrevendo a lei da gravidade no plano da altura fictícia. E a lei essa, revôlta em não haver caído senão onde se sempre esteve, é o colidir com aquilo que é a memória sensorial dos vislumbres fotográficos desse hipnótico rasto branco que são os pózinhos de magia que esporádicos se fazem libertar à estratosfera.

...

Halos de côr arroxeada ou escarlate. Halos em vibração, halos em diluição. Mais vibração... E súbito, a percepção de que não se trata de um exuberante cometa. É em verdade todo um Outro Universo, uma neo-génese em bruto e absoluta, todo um ilimitado esplendor galáctico que ali, na mera finitude da possibilidade cósmica, deixou pintalgar a sua magia supra, e transliterou manchas de tudo o concebível e o inconcebível. É nesse preciso instante e em nenhum outro, é nesse ínfimo milionésimo de segundo em que toda essa humanamente incomportável compreensão do que por ali acabara de passar se abate esmagador, e tudo se transfigura, tudo assume uma face coloridamente reveladora de elementos do inexplicável; numa milionésima de segundo em que saltam ao ecrã da nave ou exploração, a noção de que tudo é ali mais e maior, de que tudo é ali o que não é em mais lado nenhum, ou de que tudo é ali.

Mas no instante seguinte, o mesmo ecrã ou exploração apaga e apenas é de observar um baço reflexo do real (expressão indecifrável). Não existe explorador do paralelo; tal é uma profissão históricamente do lado de cá. Em rigor, é quase paradoxo a latência necessária do concreto na novidade. Não é possível.

Mais uma vez, não é possível.

...

Condenados ao inegável, todos os visados estão remetidos a regressar por de onde vieram, perturbados pelo eco desse esplendoroso mundo sinfónico, e mais que cegos só por lhes ser nítida na terra seca o decalque das suas pegadas idas, bem como por a luz dos candeeiros que ressurge lhes humidificar a visão com o ardor melancólico da sua vaga claridade.

Tão vaga ao pé Daquilo... de todo Aquele mistério... de toda Aquela magia!...

domingo, outubro 16, 2011


Ornamentos de Grécia Antiga, cénica de um arcaico palco ou estrado. Os póneis oscilam na vertical da sua dança, o seu olhar arregalado e distante, pautados pelo ranger da madeira que os anos farpam. É a ela que circulam, é por ela que circulam, e assim será enquanto a hora do circo.

Casa de fábulas esvaídas, flores em torno a um claustro. Pinta-se de outra descrição a redoma que eterna consta da condição dos primeiros filósofos, homens solentemente entregues a metaforizar os limites das suas metáforas, os contornos da sua existência o decalque ensombrado das cavernas dos primeiros, e em particular deste mesmo parapeito virtual.

Fica imperfeito e surrealista este seu mesmo quadro, janela de linho desfiado aqui e ali, carcomido acolá. Pois que é noite e não dia, por sobre os vidros da alma.

terça-feira, outubro 04, 2011



Matéria da ante-ascensão, vertigem que se descreve circunflexa entre as nuvens. Pensamento contínuo ou vapores do mar-viagem, este difuso sentimento branco subtrai à alma parte substancial daquilo que se sabe. Bilhete de ir, sobretudo (não importam agora as modalidades que o caixeiro do Destino coloca à disposição). Como transgredir, o único mote que demarcaria ao fundo o horizonte se houvera contra-sentido. Paradigmas transvertidos, ímpetos destrincheirados, estalidos na harmonia caos, o desequilíbrio da super-nova, o cume da dimensão.

Isto tudo, ou olhar-te nos olhos e parar o tempo, ali naquele altar de admiração desconcertante em que tudo é fotões, décibéis e terramoto. E deixar assentar todo o fascínio sobre o medo que se tem do que é divino. Assim se recebe. Assim se pinta a Beleza na tela de um simples aqui. Assim se esboça o Amor na folha em branco de estar.

Assim se droga a Dôr e a Razão.

Freia de novo o autocarro... a minha paragem - tem de ser?

...é...



Erupções mentais. O animal racional tenta violar o vácuo. A fresta no nada é um idioma de ser. Um atractivo idioma estrangeiro. Superamos o agora, almejamos, e tornamos a cair na delinquência da matéria.

Oh, povo que se ergue das catacumbas, geração semeada dispersa, oh, extravagante nós que é o homem-rapaz à frente do computador, plural fervilhante na redoma do zero-um.

Paixão-tinta-amor, esse universo desdobrável que apenas requer gotas de limão-côr, que apenas requer a alma de olhar para ele, de ver por ele fora - pois que ele é contido no escuro e é a luz da lanterna.

No exercício do além, tudo é lá algures. Cérebro que se reprograma num mundo-"onde é?". Incerto mas pleno, o estar lá. Louco mas total, o sentido. E faz!

Afogo a realidade. Correcção - afogo a irrealidade. Verte assim o preparato da Vida, abafando o soluço de ter que regressar. Acordo à infinidade. Admirável mundo novo - éter-amanhã-sempre.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Há um bar junto a uma calçada estreita e esburacada, devidamente tapeteada pela sombra. Aparentemente banal e pouco frequentado, é difícil estimar que atractivos realmente mais teria este pequeno recato, para quem inadvertido se deixasse tropeçar pelas curvas tortas da ruela.

Repleto da coloração que lhe dá uma colecção difusa de pequenas peças impressionistas, de pinceladas que evidenciavam uma espécie de luta para não recair na pureza da respectiva abstracção, o ambiente é indefinido. O dono apoia-se no balcão de madeira mal conservada enquanto fita um pouco abandonadamente o espaço comum.

A noite tinha tudo para ser costumeira. Por algum acaso desta, ou apenas por falta de alternativas, alguma clientela dispersa chegava para discretamente recostar-se indistinta, em geral fazendo-se acompanhar de uma aguardente por cabeça. Assumindo como que o papel contratado de consumidores, as pessoas deixavam-se enquadrar perfeitamente na tela desta observação. Assim o conjecturava o dono do espaço, preocupado com as repercussões das presenças física e metafísica deles nas dimensões da arquitectura circundante e conjunta, concentrado em particular na ausência de enredo que as interligasse, na intangibilidade do significado que imperava cada semblante, e em como era manifesta a sequência de imprecisões erráticas que prenunciava sempre a inconclusividade acompanhante da sua mesma extinção, sobressaindo tudo isto à semi-distância deste bem posicionado espectador. Descrevia essa sensação de conluío das formas com a curvatura progressivamente mais acentuada do arco do seu olhar, do seu corpo apoiado na mesa, e do próprio enfoque da sua observação. A nitidez do tédio era crescente e inevitável; como um animal mitológico que se alimentasse de sonhos, impunha-se gigante no centro da sala a bafejar todo o ambiente de uma opacidade turva, e trazendo assim fatidicamente ao bar a única qualidade omnipresente que antes se tinha apontado por omissa.

Mas esta não era uma noite costumeira.


quarta-feira, setembro 28, 2011

...vem de longe

de longe - ffffffuuuuuuu

Quero captar esta emoção que irrompe finamente pela noite, delicada balística do ser-oeste... resquícias de verbo e drama impõem-se no espaço despercebido, fervilham no frio da hora, libertam-se no apartamento... É só. Mãos que reagem à cócega, os dedos a sinalizar que haverá reacção, trejeitos.

Por sob o tédio de enfrentar a alvorada, sol elevado a demarcar o que é coberto e o que o não está, o que é presente e o que é possível que o esteja, e a tez a ressentir-se secamente, à radiação.

Ténue como o capricho de o dizer, a voz que se aproprie deste sem-fim de nada com nenhures, desta poeira que resulta de uma projecção de uma emoção chocar com as notas de um piano em surdina que teima em trazer aos passos taciturnos a noção estática de melancolia, sob a quietude imensa de não exaltar o desespero esbatido, sob o tejadilho de memórias como vizinhos, que por vezes arrastam as suas solas gastas ao soalho irrelevante, e que não somos nós - míriade uniforme de disparidades, dobras no lençol de ir dormir ou de qualquer outra banalidade que se siga.

Ressoando na longa cauda da serpente-noite, o tumulto do deserto, a paixão da secura, o contraste que ondula pelo mar negro e simples como um cântico de sereia perdido e disperso às brisas ténues mas cortantes. Marujo, proa, mar, branco - parede.

...terra à vista...

Entoa um arpejo último,

arritmado,

prolongado.

Como um suspiro se arrasta sem fôlego para não ter (fôlego).

domingo, julho 03, 2011

Grande pausa cardíaca,
vermelho-sol
no grande átrio
das emoções,
pessoas desfilando
os seus destinos.

Onde está
a vida
solitário-social
que é isto tudo,
ininterrupção viva
ou morta
do sonho e dias?

Porque arte é investimento,
bolsa de valores
que é o homem,
o ego
de chamar "bom"
ao que nos toca,
ao que nos beija,
ao que nos fere.

E lá por baixo,
as cabeças iluminadas
(artificialmente?)
por este nada-sol
na sua passagem
para o outro lado
da data,
aqui.

Alguém
ou ninguém,
em pouca diferença
para lá da pintura,
tinge apenas,
passa
apenas.

Momentos mil
e uma nova vida
em falta,
antecipação do ser
ou não-ser
em negação -
estatuária do caos
que é o cosmos,
espaço.

Pontilhado monumento,
anfiteatro -
reflexão.
Arte pendente
e discreta,
candelabro
de um futuro
e do medo
invertido.

Conforme o presente
se infiltra no sonho,
o sonho se projecta
artisticamente
numa linha curva
que erra intermitente
a dimensão
e executa
intermitente
a coragem.

Valor
na esquina de projectos
e o sentimento
do sempre
que é a formiga
que se afasta
alguns centímetros
e retrata o horizonte
com a legitimidade
de uma formiga
em trilho aproximado.

Especulação,
deriva sistémica
que nos traz
ao berço-mãe
de acreditar-chorar
o nós
em escala de si
completa
e maior.

Temporal menor
e embarcação do passado,
poema antigo
recuperado e desbotado
no-pelo fluxo,
tempo e emoção.
Regra ou tragédia?
Alma ou comédia?
Ilha-naufrágio:
maus hábitos,
habituação.

quinta-feira, outubro 28, 2010

(de sábado)

A deturpação dos sentidos,
do sentido,
de tudo.

Aproveita-se a inspiração
da desinspiração
para expirar
mais um pedaço
de realidade
.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Algures perdi a noção dos meus apontamentos. À medida que retomo novas rotinas velhas, dou por mim sem saber o que é mais correcto valorizar, se o tempo ou se a passagem do tempo. Vasculho (pouco), num absurdo estremecer de bolsos, ciente com o gôto das respostas fúteis, transposições que se sentem mãos na garganta. Farto destes posts estou eu, e da deriva inútil dos pequenos berlindes que se intrometem no jogo da memória, laivos de luz intangível, escondida dentro de pequenas e estúpidas circunferências.

Triste como nunca da resposta incutida. O alinhamento, astros estagnados em ondulação bem regrada, a mortandade de usar o tempo, falsos rubis nunca rubros.

A palavra "nunca" surgindo sempre em reforço do que não era ou será. Escolhas ridículas amontoando-se num grande baralho raso. Pedregulhos irregulares e pesados.

Nisto, sinto que encolho. Caibo mal em mim. E transbordo.

Para trás, alguma viscosidade mais deste preparado pouco solúvel. Que escoa assim mais um pouco.

«Amanhã, fará sol ou chuva?»

(Gira a alma sobre si mesma.)

terça-feira, outubro 05, 2010

Que nos tentemos agarrar a algo, a prova de que já se nos escorregou da mão.

terça-feira, abril 27, 2010

(De há dois domingos:)

O mundo aterra defronte; a luz pálida empresta alguma realidade aos prédios opacos. Como um enjôo, as primeiras pessoas convulsionam já levemente os passeios e passadeiras. Padece a cidade daquela azia anónima que antecede a azia própriamente dita. Por sob este cenário mal iluminado, os actores acompanham o guião a meia emoção. Mal reclinado numa cadeira gasta, um poeta pretende a cenografia respectiva. Tenta pintar o verbo, enquanto a engrenagem se não instala em definitivo, exterior e maquinal como um comboio em que o todo embarca rumo a uma paragem qualquer. O destino de hoje, sem ser incógnito, é supérfluo de inviolável. Há maresia naquele gingar de carruagem, e nas guinadas pré-programadas pelo percurso. Abafada e inodora, mas maresia. O enjôo aumenta.

Entre os demais passageiros, hipnotizados pelo instalar-se da frescura e luminosidade matutinas, alguém deixa pousar brandamente a sua mão de encontro ao vidro. Como que algo de sagrado emana daquele pequeno parque verde, que em câmara lenta se perde com dois ou três peões que o atravessam plácidamente, com o casal de namorados que nele sorri de mãos dadas, e mesmo com o sem-abrigo que em seus bancos viu um último reduto, senão de conforto ou liberdade, pelo menos deles tão ilusório quão o ar frio e os sons do tráfego não distante o permitem. A mão deste passageiro atípico está aberta sem estar espalmada - talvez num reflexo pré-consciente que, como uma pedrinha, veio desenhar círculos imperfeitos no lago da falta de esperança. Os restantes passageiros prosseguem nas mais diversas posições - sentados, debruçados sobre o seu corpo, ou agarrando a pouca firmeza o apoio para quem vai de pé, procurando em suma dar alguma continuidade ao repouso que deixaram para trás. Mas na alma, os seus braços estão caídos, como marionetas que aguardam pacientes o início do espectáculo a que obedecerão, com as doses de existência e gesto que se entender apropriadas. Nisto, as portas abrem-se, e chega de fora, por entre o som de passos e pedidos de licença, um eco antecipado das palmas que alguém lhes há-de bater.

Após se ver arrancado da sua espera letárgica por alguém que não conseguia passar, o passageiro afasta-se bruscamente num pedido de desculpas que cai seco como a mais recente rima de um poeta triste. "Estava difícil..." alguém lhe vocifera de trás. Se está. Tal como uma palavra não é a emoção que tenta exprimir, a presença naquele apinhado de gente é tão irrelevante que chega a ser absurda. Tal como a rima é só dois sons parecidos em promessa de harmonia, a conversa circunstancial com um conhecido que acaba de entrar é um placebo fraco para esta ruidosa paisagem sonora. Tal cacofonia dispersa é dura como uma rígida quadra de um soneto trágico. De significações que se perdem na distância, há como que uma paragem adicional algures neste labirinto ferroviário, e da qual por mais transbordos que se faça, não se consegue sair. Por toda a encruzilhada da cidade, as sombras dos escritórios ou das habitações caem sobre as suas mil estradas e ruelas e revelam um beco infinito e omnipresente. Um gato passa veloz, ao abrigo dos cinzentos pouco nítidos. Dois namorados beijam-se no parque já longínquo. Alguém mete por uma viela estreita e mal iluminada, em cuja placa se pode ler "Beco da Solidão".

O sino de uma escola faz-se ouvir nas redondezas. Sem pedir licença, um míudo apressado corre para fora do comboio. A cidade despertou sem pedir licença.

terça-feira, março 02, 2010

Percebo hoje com agudeza aquela sensação indefinida que veste um fino manto de tristeza.

É no fundo um certo tédio, que se retorce sobre si, procurando à sugestão da ligeira brisa definir a cócega na pele, sublimar a emoção o que é ar, a côr o que é baço. Até que por fim se queda à beira de restícios de intensidades do passado, como quem fita o abismo de um topo tal que a paisagem é indefinição, névoa acinzentada. Como quem se tenta apropriar de um reino mágico, absurdamente paralelo a tudo. E assim se desvincula da geometria de passar... Da insuportável ortogonalidade de ser com sonhar.

Oh, albergar esta noção de que por sob o tempo e a vida, trago ainda esta gélida paisagem que é o Inverno de ter outra forma, e o qual teimo em não hibernar. Sinto, quando vivo, quando falo, um vago arrepio dessa minha verdade refrigerada, subindo-me à espinha pela distância a que estou dos momentos.

E sobre isto, visto um majestoso manto que apelido de sentimento. Fino como um desenho. Não aqueço.

domingo, fevereiro 07, 2010

Algo me inspira. Sinto qualquer coisa de exterior a tocar-me daquela forma. Ao de leve, mas no centro dos sentidos. Prometendo agitar o berço do repouso do que é.

Quero agarrar esta mão invisível. Quero escrever o poema, pleno da vida que bate com o seu toque. Sinto os versos cardíacos a sussurrar: "Mais... mais!..."

Não sei juntar páginas soltas ao livro do dia-a-dia. Como viver esta arte, e ultrapassar a matéria, a realidade (acordos e expectativas) ?

Sei só que uma mão suave fez bater de rompante o coração. Uma mão tão forte que o faz sem o querer, sem o saber sequer. Uma mão que tinge de vermelho o pôr-do-sol e pinta de espuma as ondas, numa praia que era simples harmonia.

Uma mão veio desafiar o quadro. As ondas ressoam cá dentro. Num apelo lindo e escondido como o de um búzio. Enrolar-me na espuma e aceitar a maré - que ora arrasta consigo, ora devolve à orla costeira.

Sublime e poderosa Natureza.

E um quadro inacabado...

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Fluxo intermitente.
As comportas abrem-se,
devagar.
Gotas de emoção salpicam
o trecho curvo
e as margens são muros
de pedra
esculpida fustigada.

Passagem parcial,
rastos de pele em sangue,
restos.
Folha a bóiar encharcada,
Estupefacção da ânsia,
Desenho classicista,
Agonia do contraste.

Madeira embarcação,
árvore horizontal,
árvore deitada abaixo,
terapia ou amnésia -
A espuma e o medo
tingidos de branco
desde a quilha
(para trás).

Transparece azul
a fundura turva do rio
sob o espanto,
distorção ondulada
(reflexo e percurso).
Da dôr a viagem,
da vida um segredo
profundo.
Dissipação.

quarta-feira, outubro 14, 2009

E no entanto, há as que teimam em ferir os olhos e a alma como um sol perigosamente próximo. Um exemplo. E faça-se erguer o volume à altura de as suas chamas.
E, se tivesse que explicar
algo acerca de mim,
se houvesse algo, alguma vez,
que tivesse que ser explicado
aqui, ou noutro lugar
em que o desafio serve de estímulo
temporário
à ilusão
de agir,
em poucas palavras
tentaria dizer
as muitas palavras
que se iriam formar
em torno das palavras
que o não sabem dizer.

Sucinta e fugaz melodia,
aquela de tantas músicas
sempre diferente e a mesma,
uma que convida a acompanhar
o acompanhamento que é essa melodia
no seu convidar-nos a acompanhar,
aquele som que tinge de atenção
o coração que era latente
no vago latejar do seu tempo,
nuvem fria sob o sol quente,
sim, essa melodia que sopra
e destapa a nudez, o sentir,
faz lembrar aquele casamento
da ideia de ser - não poder -
com o misto de querer e tentar
- e sofrer - .

Sons na mente, solene projecto;
como qualquer melodia, mente.
Um trajecto perene,
o ocaso.
O cérebro,
um corredor de distâncias
veloz na partida
e rápido a cansar-se.
E assim castelo
se sucedeu a castelo
num reino de cartas
sem remetente,
que é o nicho do sonho,
o sonho de um nicho,
sonhos e nichos,
confusos,
difusos,
desusos.

Me abstenho de novo de ver
- abro os olhos -
e a noite é pálida como uma criança,
e o dia é tórrido como sempre foi,
e andar cansa como qualquer dança
à melodia que cessa e avança
pela orquestra de não haver tema,
pelo horizonte de aqui
e os traços rasgados de ali,
longe como os nervos perto,
um longe asfixiante,
cortante,
como a navalha
que estralhaça o mapa.
- "Poisa lá a mala...
É hora de desistir outra vez."
O desertar à missão
que é o deserto,
sempre perto

e a languidez arenosa
de perceber que das notas,
que do requinte do trecho
se espalha ao vento a beleza,
ficando um só tinir oco
que é informação
vestindo uma túnica
proporcional
e seca.

Do mistério da miragem,
da complexidade do novo,
a mera ortogonalidade
e um sabor a sangue,
pouco.